Nós precisamos de uma série Castlevania sanguinolenta?

Castlevania não é uma franquia com uma estética sólida e nem uma única cronologia ou mitologia. Apesar de lutar com consistência e relevância por anos, Castlevania é especial. Olhe pros videogames do passado e veja o quão insubstituível é a trilogia original do Nintendinho e quão influente Symphony of the Night foi e permanece a ser. Castlevania é uma leitura obrigatória pra qualquer autoproclamado historiador de jogos. Então, quando o Netflix nos lembra que uma série de tevê de Castlevania não está apenas em andamento, mas que sai este ano, as pessoas ficam ansiosas – ainda mais os fãs. Especialmente considerando a equipe criativa e a visão em exibição até agora.

Apesar da notícia de que o Netflix está desenvolvendo Castlevania seja relativamente recente, a própria série não é. Em 2015, o produtor Adi Shankar anunciou seu envolvimento no Twitter e realizou entrevistas sobre o projeto. A série é baseada em Castlevania III: Dracula’s Curse e é escrita em grande parte pela lenda dos quadrinhos Warren Ellis. A animação está sendo produzida pelo estúdio Frederator – Hora da Aventura e Os Padrinhos Mágicos. Esses dois nomes juntos já me dizem uma coisa em particular: esta série vai ser diabolicamente perspicaz.

Francamente, perspicaz não é sinônimo pra uma boa narrativa, pra boa representação do que esses jogos significam no amplo contexto cultural dos jogos. Perspicácia pode ser boa em muitas situações, como o projeto de estimação de Shankar, o filme Dredd, que foi insano, criativo e completamente sombrio. Por outro lado, Shankar é também o nome mais fortemente associado a Power/Rangers, um filme fã viral que balançou na linha entre intenso e visceral, mas de uma forma que sugou totalmente a alegria do material de origem a favor de um excesso de tragédia e desesperança, onde simplesmente nenhum personagem pode ter um final feliz.

Sabe qual é o problema de Power/Rangers? Ele funciona como um curta-metragem e só isso por alguns motivos. O primeiro é a extrema mudança no conceito original da série infantil: todo mundo que se lembra da série já é adulto, mas eu espero de coração que eu não seja o único que leva uma vida feliz e razoavelmente equilibrada, de forma que um filme ou uma temporada naquele tom simplesmente não iria agradar aos fãs, só à meia dúzia de doidos. O segundo é justamente o tom exagerado: tudo é triste demais, pessimista demais, trágico demais, novamente, um curta assim, dá pra digerir, mas duas horas ou mais seria exaustivo. E terceiro é o fator replay: alguém conseguiria assistir aquilo mais de uma vez? Eu não quero ver nem o curta de novo. Achei divertido, a experiência foi válida, mas por que eu vou realmente fixar na minha mente uma visão tão distorcida e sombria de uma das minhas séries favoritas da infância?

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Um reboot como o filme é mais promissor justamente por ser mais versátil do que aquele curta, no fim das contas. “Ah, são adolescentes, eu já sou adulto”. Sim, mas o Homem-Aranha também é um adolescente e isso não impediu os adultos de assistirem ao filme original de 2002, nem ao primeiro reboot de 2012 e nem ao próximo de 2017, mesmo sendo o Peter Parker mais jovens que o cinema já viu. Nós podemos gostar de histórias pra todos os públicos, como o Homem-Aranha, Star Wars e Power-Rangers, oras.

castlevania netflix

Shankar disse a respeito de Castlevania: “Vai ser sombrio, satírico e, depois de uma década de propaganda, ele vai mudar o subgênero de vampiros em sua cabeça”. Eu li esta frase e várias coisas sobre Castlevania ressoaram na minha mente. Lembro-me de como fiquei com medo do morcego gigante no final da primeira fase do primeiro Castlevania de todos – meu jogo favorito de Nintendinho, a propósito -, e como passei a encará-lo como um obstáculo a ser derrubado pelas minhas próprias mãos e como essas sensações se repetiram a cada novo chefe que eu alcançava. Então, pensei em como esses elementos antiquados e sem frescuras foram transformados na narrativa e no humor fantásticos, mas de alguma forma ainda subjugados e reservados na era PlayStation. Depois disso, nós apreciamos o absurdo gótico dos títulos de GBA e DS. Mesmo com o folclore da Europa Oriental um pouco despretensioso, Lords of Shadow tinha um charme distinto – eu não sei por que esse jogo foi tão elogiado, o enredo é um lixo e a jogabilidade é um cópia mal feita de God of War.

Tal citação também me atirou de volta ao meu rosto contorcido em um revirar de olhos enquanto eu assistia Power/Rangers ainda na época em que ele estava se espalhando pela Internet como um incêndio desprezível. Isso me lembra as estranhas demonstrações da E3 de Lords of Shadow 2 deixando todo o público desconfortável. O que Power/Rangers e Lords of Shadow 2 têm de semelhante? Um esforço impressionante de exagerar tudo o que tem de sombrio e deprimente em uma franquia que nem de longe vive só desses elementos. Pelo contrário, são franquias versáteis e capazes de agradar a diversos públicos, mas quando são levadas ao extremo, acabam não agradando nenhum.

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Uma produção orientada pra adultos é uma faca de dois gumes. Ou é um sucesso avassalador como Deadpool ou um desastre como Batman V Superman. Deadpool é adulto meramente pra se dar ao luxo de falar palavrões e mostrar violência explícita, enquanto o roteiro é bem leve, se for analisar – a gente ri mais do que qualquer outra coisa. Batman V Superman, por outro lado, é tão sombrio por quê? A história não é sombria ou brutal, é apenas confusa. A falta de cores serviu pra alguma coisa, além de nos lembrar que a Warner quer toda a distância do Universo daquele filme do Lanterna Verde? Sejamos sinceros, Batman V Superman é um filme divertido, mas sem pé nem cabeça e que merece mais críticas do que elogios. Não é o que queremos pra nenhuma franquia amada.

Castlevania não é sobre ser furioso, violento, arenoso ou subversivo. Começou como uma celebração ao horror clássico – principalmente aos filmes do Universo Cinematográfico dos Monstros da Universal – e evoluiu pra algo com vida e estética própria. Claro, nunca houve muita história além de “Drácula é o vampiro do mal, bata nele com o seu chicote “, mas muito mais do que isso não é necessário. A série não precisa ser “subversiva” ou fornecer comentários patetas sobre a mídia de vampiros, ela só precisa ter esse nível mais elevado de pensamento colocado no tom, no humor e no design visual.

Eu não estou dizendo que a série Castlevania vai ser ruim. Pelo contrário, estou torcendo pra que dê certo. O talento por trás dela é legítimo. Eu também tenho que reconhecer que perspicaz e visceral é o que faz dinheiro nos dias de hoje. Basta olhar pra Game of Thrones e a ascensão da HBO e pra Netflix com seu foco ao público adulto. Mas se tudo segue o mesmo modelo, de que adianta ser perspicaz quando você abre mão da perspicácia em troca de elementos que chocam o público? Como um Power Ranger cheirando cocaína. Tipo, sério? O que significa subversivo se você não está combatendo a cultura em momento algum? Precisamos forçar a criatividade, não limites, e Castlevania deveria ser o veículo perfeito pra isso. Os jogadores não querem máquinas de caça-níqueis tanto quanto não querem adaptações ruins. Nesse quesito, já basta as muitas frustrações que o cinema nos dá anualmente.

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Autor: Bernardo Stamato


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