Por que a morte de Stan Lee marca o fim de uma era

O escritor, editor e executivo da indústria de quadrinhos Stan Lee morreu nesta segunda-feira (12), aos 95 anos. A causa da morte não foi divulgada, mas ele foi levado ao hospital Cedars-Sinai, em Los Angeles, onde morreu.

Em parceria com quadrinistas como Jack Kirby e Steve Ditko, o americano Stan Lee foi criador de alguns dos principais super-heróis da Marvel, uma das duas grandes casas editoriais do gênero. Entre suas contribuições mais conhecidas, estão o Homem de Ferro, o Quarteto Fantástico e os X-Men. Ele morreu pouco mais de um ano após sua mulher, Joan Lee, e alguns meses depois de Steve Ditko, seu parceiro na concepção do Homem-Aranha.

Stan Lee fazia curtas e bem-humoradas aparições em todas as adaptações cinematográficas de seus quadrinhos, portanto, os fãs do autor ainda podem esperar imagens inéditas dele em Capitã Marvel e no quarto filme dos Vingadores, ambos com estreias previstas para 2019.

Nova-iorquino, nascido Stanley Martin Lieber, em 1922, ele foi um dos mais importantes nomes dos quadrinhos por décadas, mas não foi exatamente um quadrinista. Fez história principalmente no nicho dos super-heróis ao escrever argumentos, roteirizar HQs e conceber personagens e cenários. No entanto, Lee começou a carreira em 1939, como um mero assistente, sem assumir funções criativas.

Uma de suas primeiras criações foi o Destroyer (não confundir com o Demolidor, que também foi imaginado por Lee em parceria com Bill Everett), em 1941, mas o herói não obteve o sucesso de suas futuras contribuições. Suas principais obras vieram com a renovação dos quadrinhos nos anos 1950 e 1960, justamente quando Stan Lee estava pensando em mudar de carreira e sua mulher sugeriu que ele contasse as histórias que queria, independentemente de serem adequadas ou não às fórmulas de super-heróis. Esse conselho coincidiu com a intenção da Marvel de renovar seu rol de personagens.

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Embora não tenha efetivamente lutado, Stan Lee serviu o exército durante a 2ª Guerra Mundial (1939-1945), e retornou às atividades nos quadrinhos após cumprir as obrigações militares. A função de Stan Lee, intitulada “playwright” (algo como “roteirista”), consistia em escrever e adaptar textos, e foi compartilhada no exército americano por pouquíssimos nomes, como o dramaturgo William Saroyan, o cineasta italiano Frank Capra e o também cartunista Theodore Geisel.

Por mais que sua contribuição com os quadrinhos de super-heróis tenha sido voltada quase exclusivamente à Marvel, Stan Lee figura nas páginas de algumas HQs da empresa rival, a DC Comics. Quando seu parceiro de longa data, Jack Kirby, trabalhou na DC, ele criou Funky Flashman, personagem secundário de Mister Miracle (1972). Sem poderes sobre-humanos ou qualquer passado, Funky foi tido por muitos como uma sátira de Stan Lee, embora essa informação não seja canônica.

Lee ajudou o gênero de super-heróis a se reerguer após um período fraco. Os quadrinhos chegaram a ser extremamente políticos no início dos anos 1940 – Superman enfrentou Hitler antes mesmo de os Estados Unidos entrarem na 2ª Guerra e o Capitão América surgiu como uma resposta patriótica americana à ascensão do nazismo. Mas, com a crescente censura imposta pelo código de conduta da Comics Code Authority, formada em 1954, aliada a um momento de crise nas vendas, os super-heróis perderam relevância.

Foi com o surgimento do Quarteto Fantástico, primeira colaboração de Stan Lee e Jack Kirby, em 1961, que o estilo ganhou uma lufada de ar fresco, dando início a uma nova era de ouro capitaneada por ele. A reboque do sucesso, a Marvel deu carta branca para Lee conceber histórias e personagens que hoje são clássicos, como o Homem-Aranha, Thor e Doutor Estranho.

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Nos anos 1960, Stan Lee não apenas criou heróis que permaneceram no imaginário coletivo, mas foi um dos grandes responsáveis por um maior engajamento no gênero. Ao mesmo tempo que os X-Men refletiam a discussão pelos direitos civis dos negros em voga nos EUA – o conflito entre Professor Xavier e Magneto tem paralelos evidentes com as disputas entre Martin Luther King Jr. e Malcolm X -, a superequipe também foi uma metáfora da luta LGBT: os mutantes tinham poderes, mas precisavam ocultá-los de uma sociedade preconceituosa que os reprimia.

O Pantera Negra, criado antes mesmo do partido homônimo, também foi um herói que abriu as portas para a representatividade e a discussão sobre racismo nos quadrinhos. Já o Demolidor foi o primeiro super-herói a possuir uma deficiência, e usava sua cegueira não como um problema, mas como uma vantagem, dando um excelente exemplo de empoderamento social.

A variedade temática que as histórias dele abarcaram é enorme: desde o misticismo oriental do Doutor Estranho à mitologia nórdica de Thor, passando pela ode à ficção científica de Hulk, um misto de Frankenstein com O Médico e o Monstro. Não por acaso foi o grande maestro da orquestra cósmica que a Marvel criou com seu universo compartilhado, e que agora é replicada com sucesso nos cinemas.

Stan Lee é certamente um dos responsáveis pelo atual momento da cultura pop, e sua marca permanecerá gravada no mundo nerd por anos a fio.

As 10 melhores aparições de Stan Lee


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